Cheguei ao arraial do meu bairro ao cair da tarde, quando as luzes penduradas começavam a acender uma a uma.
Não tinha combinado com ninguém, mas, levado pelo cheiro a sardinha assada e pelo rumor das marchas, dei por mim a seguir a multidão como se reconhecesse cada esquina.
À entrada, uma senhora de avental ofereceu-me um manjerico com uma quadra, e ri sozinho ao ler o verso trocista.
Embora a música estivesse alta, havia uma ternura antiga naquela confusão que me fez abrandar o passo e olhar tudo com calma.
Parei numa banca de farturas, hesitei por segundos, e acabei por pedir duas, alegando para mim mesmo que a segunda seria para mais tarde.
Enquanto esperava, um miúdo de olhos vivos puxou-me pela manga e desafiou-me a acertar nas latas para ganhar um prémio.
Não resisti: se acertasse três vezes, ganhava um peixe de peluche que depois, confesso, me acompanhou o resto da noite pendurado no pulso.
Mais adiante, perto do coreto, uma fadista afinava a voz, e o silêncio que caiu, mal começou a cantar, fez-me pensar nos avós que dançavam ali quando ainda eram namorados.
Como a rua se apertava com tanta gente, encontrei a vizinha do quarto esquerdo, que me puxou para a roda, e lá fiquei a marcar o compasso, desajeitado mas feliz.
Quando a procissão passou, com velas e papelinhos de cor, senti que, apesar de frequentarmos caminhos diferentes, todos nos reconhecíamos naquele mesmo gesto de festa.
No regresso a casa, já de noite fechada e com os dedos a cheirar a fumo, prometi voltar no ano seguinte, para que a cidade não me escapasse por entre as mãos outra vez.