Perdi o caderno de receitas da minha avó na feira de sábado, no exato dia em que prometi fazer o bolo de fubá dela para a vizinhança.
Dei falta dele quando, voltando com as sacolas, enfiei a mão na mochila e só achei migalhas e recibos amassados.
Na hora, gelou o corpo; não era um caderno qualquer — era onde a letra dela ainda respirava.
Refiz o caminho, perguntando de banca em banca, e cada "não vi, não" soava feito martelada.
Na barraca de pastel do seu Toninho, sugeriram anunciar no grupo do bairro, porque mil olhos veem mais do que dois.
Escrevi uma mensagem caprichada, com foto antiga do caderno, e fiquei de plantão, embora a esperança minguasse à medida que a tarde escorria.
Já ia anoitecendo quando uma senhora de sombrinha florida respondeu em áudio, dizendo que o neto achara "um livrinho todo rabiscado" no ponto de ônibus da esquina.
Corri até lá e, por uma dessas peças que a vida prega, o menino me esperava com o caderno embrulhado num saco de pão, como se guardasse uma relíquia.
Agradeci com um nó na garganta e só então percebi que, mais do que recuperar papel e tinta, eu recuperava um pedaço de conversa com quem já se foi.
De volta à cozinha, o bolo saiu alto e perfumado, e a vizinhança, reunida no corredor, jurou que sentiu a minha avó passar — não pelo cheiro, mas pelo cuidado.