O telefone tocou quando a chuva já tamborilava no parapeito, e hesitei antes de atender.
Do outro lado, uma voz que não ouvia há uma década se apresentou sem cerimônia: "Sou eu, a Júlia".
Na hora, caiu a ficha; parecia que o tempo mordeu a própria cauda e a sala encolheu para caber no passado.
Júlia foi falando sem rodeios, como quem esteve só esperando a fresta certa: achou, numa mudança, um ingresso amassado do show a que nunca fomos.
Rimos daquele fiapo de plano furado, e, entre uma gargalhada e outra, ela comentou que a vida lhe deu voltas doidas, mas não exatamente as que sonhava.
Confessei que me escondi em prazos e planilhas, fingindo que prodígio é quem não sente saudade; e doeu admitir que eu é que me afastei.
Do lado de lá, silêncio de papel fino, seguido de um "deixa disso", dito num tom que só amigo antigo sabe usar.
Falamos de perdas e recomeços, de pais envelhecendo depressa, de empregos que trocam nosso nome por metas, e, sem combinar, fomos arredando culpa para abrir espaço.
Quando propus café no domingo, Júlia topou na hora, pedindo a padaria da esquina da faculdade, "para ver se o pão ainda chega quentinho".
Desliguei com um nó na garganta bom, daqueles que garantem que a vida, apesar dos desvios, ainda sabe costurar encontros.
Fiquei olhando a janela molhada, e pensei que, se a coragem atrasou, ao menos pegou carona na ligação certa.